Microsoft compra o GitHub. E agora?

A segunda-feira começou com uma notícia que pode ter um grande impacto sob a comunidade de software global: a Microsoft comprou o GitHub em uma transação no valor de US$ 7,5 bilhões. Passado todo o frisson causado por essa notícia, chega a hora de fazermos uma análise mais lógica: quais serão os possíveis impactos para nós como desenvolvedores com relação a esta aquisição da Microsoft?

Antes de tudo: o que é o GitHub?

O GitHub é um dos mais populares serviços de hospedagem de código no mundo. Trata-se de um serviço baseado na web para hospedagem de código através do Git – uma ferramenta distribuída de controle de versão open source.

Aqui já entra um ponto que merece destaque e é fruto de confusão: o GitHub usa o Git por baixo dos panos para gerenciar os códigos que são enviados para ele. O GitHub não é o Git. Vários outros serviços oferecem serviços parecidos com o GitHub, sendo inclusive concorrentes entre si. Alguns destes serviços são o GitLab e o BitBucket. Todos estes são, assim como o GitHub, serviços web de hospedagem de código baseados no Git.

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Basicamente, o GitHub pode ser usado em sua versão web de duas formas: através de repositórios públicos ou através de repositórios privados (quando falamos sobre repositórios, estamos falando sobre “locais” onde o nosso código pode ser armazenado e compartilhado entre desenvolvedores de qualquer lugar do mundo). A precificação varia de acordo com a tabela abaixo:

PlanoPreçoInformações
GratuitoCriação de repositórios públicos de maneira ilimitada
DesenvolvedorUS$ 7/mês/desenvolvedorCriação de repositórios públicos e privados de maneira ilimitada
TimeUS$ 9/mês/desenvolvedorCriação de repositórios públicos e privados de maneira ilimitada, controle de acesso aos repositórios entre múltiplos usuários. Mínimo de 5 desenvolvedores no time.
Empresarial – hospedado no GitHubUS$ 21/mês/desenvolvedorCriação de repositórios públicos e privados de maneira ilimitada, suporte 24/5, tempo de SLA de até 8h úteis.
Empresarial – hospedado em infraestrutura própriasob consultaCriação de repositórios públicos e privados de maneira ilimitada, suporte 24/7, suporte a múltiplas organizações.

No caso de repositórios públicos, nenhuma taxa é cobrada: a hospedagem do código é completamente gratuita. Porém, repositórios públicos (e, consequentemente, o código contido neles) podem ter seu conteúdo visualizado por qualquer pessoa (mesmo aquelas que não possuem uma conta no GitHub). É nessa modalidade de repositório onde os projetos open source acabam sendo hospedados, justamente para que o código fique exposto para a comunidade sem problemas.

E é justamente para a comunidade open source que o GitHub tem mais significado. O GitHub é uma plataforma estável e robusta, com mais de 10 anos de estrada e mais de 28 milhões de desenvolvedores e empresas como usuários. Entre essas empresas, nós incluímos os gigantes atuais da tecnologia: Google/Alphabet, Facebook, Amazon, Apple, Canonical e até mesmo a própria Microsoft.

Toda essa comunidade confiou hospedar seu código no GitHub justamente devido a sua robusteza e estabilidade, além de o GitHub ser uma plataforma fortemente comprometida com o open source desde suas origens.

E vem a Microsoft e… Compra o GitHub!

A Microsoft aceitou os termos de compra e iniciou o processo de absorção do GitHub em 4 de junho de 2018. O valor da compra foi especulado em cerca de US$ 7,5 bi. O interessante é que esse processo de compra não ocorreu do nada. Rumores apontam que as conversas sobre uma possível compra do GitHub por parte da Microsoft existiam desde 2017. Porém, o acordo de compra só foi finalizado de fato agora em 2018.

E isso desagradou uma parte da comunidade de desenvolvedores…

Uma parte da comunidade de desenvolvedores se revoltou com essa operação. Muito dessa revolta se deve ao fato da antiga postura da Microsoft, principalmente na década de 90 e até os anos 2000.

De fato, nesse tempo, a Microsoft não era uma empresa que apreciava muito o open source de maneira geral. Na verdade, ela tinha uma postura completamente adversa, sendo uma grande defensora do software proprietário em geral e até ignorando a existência de soluções open source de grande qualidade. De fato, a comunidade open source em geral via na Microsoft um grande demônio que procurava destruir as iniciativas open source para obter o monopólio do mercado .

E isso, de fato, seria motivo mais do que suficiente para assustar a todos os desenvolvedores e empresas com seus projetos open source hospedados no GitHub.

Mas o fato da Microsoft ter comprado o GitHub não é motivo de pânico e medo!

Acredito que não há motivo de pânico, mesmo com toda a história, no fato de a Microsoft ter comprado o GitHub. E acredito que isso seja devido a uma pessoa em especial: Satya Nadella.

Satya Nadella é um indiano que foi nomeado CEO da Microsoft em 2014, no lugar de Steve Ballmer (especialmente famoso pelo vídeo “Developers, Developers, Developers!” e pelas apresentações um pouco… extravagantes). E essa mudança de comando na Microsoft provocou uma série de mudanças no mindset da companhia.

Satya Nadella provocou uma revolução na maneira como a Microsoft encara o desenvolvimento de software: Nadella tornou a Microsoft uma adepta e grande incentivadora do software livre e das comunidades de desenvolvimento, ao mesmo tempo que convergiu as estratégias da Microsoft para ferramentas baseadas em nuvem, inteligência artificial e machine learning (tirando um pouco de foco dos lendários produtos da Microsoft – Windows e Office).

Hoje podemos ver uma série de resultados originados a partir dessa mudança de comportamento no mercado:

  • A Microsoft, em pouco mais de 4 anos, já se tornou a maior contribuidora de software open source no mundo, disponibilizando mais de 4000 profissionais diretos para a colaboração de projetos open source;
  • A grande maioria dos produtos da Microsoft hoje é completamente open source: ferramentas como o .NET Framework (Core), Visual Studio Code, TypeScript e o Xamarin hoje estão disponíveis no próprio GitHub para toda a comunidade. Isso também tornou a comunidade ativa e como parte importante no que diz respeito à evolução destas e outras tecnologias open source da Microsoft – ou seja, a comunidade tem voz ativa no desenvolvimento destas ferramentas;
  • Atualmente, a Microsoft está entre as cinco maiores contribuidoras do… kernel do Linux! Isso era algo simplesmente inimaginável há pouco tempo atrás. Então provavelmente você está usando algum código open source da Microsoft agora, mesmo que não utilize nenhuma ferramenta da empresa de Redmond. Ah, inclusive, a Microsoft lançou recentemente sua própria distribuição Linux, o Azure Sphere OS.

Estes são só alguns dos pontos que mostram que, nos últimos 4 anos, a Microsoft realmente mudou completamente seu pensamento com relação ao open source. Eu, particularmente, acredito nessa mudança, mesmo porque ela já se mostrou muito sólida e sem volta. Não vejo mais motivos de a Microsoft querer “quebrar” a comunidade open source.

Muitas pessoas citam os casos da Nokia e do Skype para justificar o pensamento de que a Microsoft irá “estragar” o GitHub. Eu acho esse pensamento muito raso por alguns motivos:

  • O Skype (2011) e a Nokia (2013) foram adquiridos ainda na época do Steve Ballmer. A empresa, como mostrado anteriormente, tinha uma filosofia completamente difernete da atual;
  • Não dá para compararmos a Nokia e o Skype com o GitHub. São produtos completamente diferentes, voltados para públicos completamente direrentes e que serão geridos por divisões da Microsoft completamente diferentes. São casos, em minha opinião, muito heterogêneos para serem comparados com propriedade e seriedade.

Por que a Microsoft comprou o GitHub?

O motivo exato ainda não está muito claro nem para quem trabalha dentro da própria Microsoft… Mas eu arrisco um palpite: acredito que a Microsoft tenha dois objetivos principais: se aproximar mais ainda da comunidade de desenvolvedores estando à frente de uma ferramenta que está entre as mais populares para desenvolvedores de software e fornecer uma integração mais sólida e prática com sua plataforma de nuvem, o Azure.

Estes dois objetivos parecem fazer muito sentido… Hoje, empresas de tecnologia conseguem compreender o poder que a comunidade de desenvolvimento tem e, por isso, estas empresas sabem que é necessário estar o mais próximo possível dos desenvolvedores, que são uma peça-chave na área de computação. E também parece bem coerente querer oferecer uma integração maior com o Azure a partir do local onde uma boa parte do código de aplicações está hospedada.

Para mim, isso ficou mais nítido ainda no comunicado oficial da Microsoft, no qual ela afirma que o GitHub responderá à Microsoft Cloud e ao vice-presidente da área de AI da empresa.

A Microsoft vai mudar o GitHub?

A Microsoft deixa claro em seu post oficial sobre o assunto que não vai mudar absolutamente nada no GitHub. E uma eventual mudança nem teria sentido, nem em questões tecnológicas, como em questões de negócio. Essas mudanças seriam inviáveis justamente por causa do tempo de estrada, estabilidade e reputação do GitHub. Não estamos falando de uma empresa de 3 anos, estamos falando de uma empresa com mais de 10 anos de estrada. E não é nem um pouco viável alterar os trilhos de 10 anos de história sob nenhuma ótica.

Para mostrar e deixar isso claro à comunidade, a Microsoft já nomeou Nat Friedman como o novo CEO do GitHub. Friedman é um dos fundadores da Xamarin e sempre deixou claro seu apoio ao open source, trabalhando com projetos da comunidade desde 2009.

Friedman, em um post de boas-vindas à integração Microsoft + GitHub, como novo CEO do GitHub, já deixou bem claro alguns pontos que preocupavam a comunidade:

  • O GitHub continuará com o modelo atual de negócios, ou seja: ele continuará aberto a comunidade e proverá serviços adicionais através dos valores citados. O foco do GitHub continuará a ser o desenvolvedor e suas comunidades. Nada irá mudar nesse sentido;
  • O GitHub irá operar de maneira 100% independente da Microsoft, como se fosse de fato uma subsidiária (em um modelo muito parecido com o que acontece com o .NET através da .NET Foundation).

Com estas afirmações (e são afirmações que não tem o porquê de não serem cumpridas), não há o menor motivo para preocupação com relação ao GitHub.

E agora?

Agora não há muito o que fazer, a não ser aguardar. Eu particularmente vejo que tanto a Microsoft como o GitHub podem crescer com essa junção. E se Microsoft e GitHub saírem ganhando, todos nós saímos ganhando também no final. Acredito que seria muito mais complicado se a Google (com suas políticas de privacidade duvidosas), o Facebook (com toda a complicação da licença do React) ou a Oracle (com sua mentalidade ainda mais voltada a software proprietário – vide o que aconteceu com o Java) tivessem comprado o GitHub. Mas, se tratando da nova Microsoft, acredito que isso possa ser interessante.

É importante também notar que esse tipo de transação no mercado é mais que comum… Não podemos esquecer que o GitHub também era uma empresa, tanto é que cobrava por determinados serviços. Empresas de sucesso no mercado estão suscetíveis a serem compradas por empresas maiores. Faz parte do mecanismo como um todo, e isso não precisa ser necessariamente ruim. E, provavelmente, ainda veremos situações como essa acontecerem mais vezes.

Vamos aguardar…

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Líder de Conteúdo/Inovação. Pós-graduado em Projeto e Desenvolvimento de Aplicações Web. Certificado Microsoft MCSD (Web).