Síndrome de Burnout: Saiba como o ambiente da sua empresa pode te adoecer

Por muito tempo colocou-se a culpa pelo esgotamento psicológico do profissional no próprio trabalhador: ele que não sabia administrar o tempo, não sabia identificar a hora de parar, seria ambicioso fazendo muitas horas extras, não sabia lidar com “jeitinho” o mau temperamento do chefe.
Felizmente a Psicologia e a Psiquiatria avançaram no estudo desta temática, e hoje, o esgotamento psicológico do profissional, ou estresse ocupacional, é chamado de Síndrome de Burnout. Sim, a forma de lidar com a situação faz parte do aprendizado do profissional. Porém, é mais profundo que isso. Além do trabalho em equipe, da comunicação, das habilidades de liderança e relacionamento interpessoal, é preciso atentar para como as empresas lidam com os profissionais.

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Aquele funcionário que está fazendo demasiadas horas extras tem uma sobrecarga física e psicológica, e qual o motivo das horas extras? Poucos funcionários no setor? Demanda temporária que vira definitiva e não é feito um redimensionamento do número de funcionários? Questões financeiras que levam o trabalhador a requisitar horas extras, ou seja, será que o salário está adequado, mesmo que esteja “compatível com o mercado”?

Fatores externos podem causar grande impacto na psique

Não basta “saber lidar” com as situações, nem ter vontade de aprender a lidar com elas, mas sim, observar que os fatores externos causam grande impacto na psique (termo técnico que significa nosso aspecto psicológico), e o profissional pode se ver de mãos atadas, sem saída, sem perspectiva de mudança, e essa percepção pode ser real, pois as empresas, não raro, são enrijecidas e não tomam atitudes de mudanças a menos que ocorra algo que lhes prejudiques financeiramente, e mesmo assim, as soluções encontradas nem sempre ajudam.

Existem profissões que são altamente estressantes por natureza, entretanto, a empresa pode ser um ambiente estressor, e mais, assediador. O assédio moral pode se dar no campo das relações (chefe-subordinado, colega-colega, cliente-profissional), porém, temos o assédio moral institucionalizado, que se dá quando a empresa cria rotinas e procedimentos que violam o bem-estar, tolhem e coagem o funcionário, e isto pode ser revelador da cultura organizacional. Não digo a cultura descrita belamente no site da empresa, junto à missão, visão e valores. Mas sim, a cultura que de fato ocorre lá dentro.

O trabalhador pode não ver saída para o assédio moral porque precisa da remuneração para sobreviver, ficando refém da situação

O trabalhador muitas vezes se sente refém do emprego, por questões financeiras, dificuldade de mudar de emprego, empregabilidade difícil, campo de trabalho muito específico, etc. Então, ele acaba tentando tolerar aquela situação. Porém, a saúde psíquica fica debilitada, e o esgotamento surge: tanto o esgotamento psicológico quanto o esgotamento físico. Doenças aparecem: quando algo não vai bem, a válvula de escape do corpo é produzir um sintoma ou doença psicossomática, que é aquela que surge em decorrência de um trauma ou situação que exige enfrentamento emocional, que por um fator ou outro, não consegue ser enfrentada.

A dinâmica do assédio moral leva o profissional a se sentir desacreditado, incapaz de lidar com situações (“Ah, você que não sabe lidar com isso”, “Ah, você precisa aprender a relevar”), e assim, tenta-se amenizar, relativizar a violência no ambiente de trabalho. Coloca-se a culpa na vítima. Minimizam-se ações: “Ah, o chefe é assim mesmo, pra trabalhar com ele precisa saber trabalhar sob pressão”. Lembram quando “trabalhar sob pressão” vinha descrito nos classificados de emprego? Creio que não apareçam mais hoje em dia, porém, verbalmente ou nas ações, isso é exigido. Lidar com pressão é uma coisa, assédio moral é outra, embora o assédio moral venha disfarçado de “lidar com pressão”.

Existem empresas com estímulo à competitividade (“Vamos estimular a disputa, porque assim ambos vão dar o melhor de si”), com um controle rígido, câmeras de vigilância, inflexibilidade, com negação das necessidades subjetivas do trabalhador, com processos ultrapassados (o meme “mais uma reunião que poderia ter sido um e-mail” representa bem isso). Tem empresas que não fornecem nem os insumos adequados nem EPIs (Equipamentos de Proteção Individual).

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Empresas e chefias assediadoras podem interferir na forma de se vestir, do corte de cabelo. Acredita-se que os profissionais sejam substituíveis, e não levam em consideração o que aquela pessoa pode agregar justamente pela visão, percepção, conhecimento que apenas ela tem. Existem empresas que desde o processo seletivo desconfiam do caráter do trabalhador, como se ele sempre quisesse passar a perna na empresa, e arrisco dizer que essas são as que mais passam a perna na saúde psíquica trabalhador.
Esses e outros fatores geram um ambiente propício ao adoecimento, e com isso, absenteísmo e rotatividade. O que, a princípio, pela lógica, equivocada, estimularia a produção, a qualidade do trabalho, e assim, traria lucro, é um tiro que sai pela culatra justamente pelos custos do absenteísmo, demissões e contratações inerentes à rotatividade.

O primeiro passo é ter consciência de priorizar a saúde mental e emocional

Para o burnout, é preciso dar o primeiro passo em direção à busca da saúde mental, seja pela psicoterapia, alguma atividade prazerosa (hobby). Em alguns casos é necessário o acompanhamento psiquiátrico para que o corpo, através da medicação, retome o equilíbrio bioquímico. Médicos especialistas também podem ser necessários para lidar com os sintomas que surgem pelo estresse, mas sem se esquecer de cuidar do emocional. Burnout pode levar à morte, por exemplo, por um ataque cardíaco.
Importante saber que alguns casos precisam de orientação jurídica, pois nem sempre conversar com a chefia, com o Setor de Recursos Humanos ou ouvidoria da empresa resolve a questão do assédio moral.

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Formado em processamento de dados, psicologia e pós-graduado nas áreas de psicologia Junguiana e hospitalar.